Sou poesia morta, no deserto do seu coração.
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almaobliqua:

Se ser livre é ser só
então a liberdade é um vácuo gritante.

Exprimo aqui a voz da minha liberdade agonizada em um calabouço.

E.


Quanto tempo dura o amor sem retorno, sem reconhecimento?

desafogamentos:

Talvez pouco, quase nada. Quem não se sente amado não é capaz de amar. Não é problema de carência, é questão de tortura.
Extravia-se a cintilação dos olhos. Ocorre um bloqueio, uma desesperança, uma resignação violenta. É como dançar valsa sozinho, é como dançar tango sozinho. É abraçar pateticamente o invisível e não ter o outro corpo para garantir seu equilíbrio.
Você se verá um mendigo em sua própria casa, diminuído, triste, desvalorizado, esmolando ternura e atenção. Aquilo que antes parecia natural – a doação, a entrega, a alegria de falar e de se descobrir – será raro e inacessível. Todo o corredor torna-se pedágio da hostilidade. Passará a evitar os cômodos para não brigar, passará a evitar certos horários para se encontrar com sua esposa ou marido, passará a prolongar os períodos na rua, passará apenas a passar. Combaterá as discussões e gritarias anulando sua personalidade. Despovoará a sua herança, assumirá o condomínio do deslugar. Comerá de pé para evitar o silêncio insuportável entre os dois.
Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?
Por ausência de gentileza, perdemos romances. O que todos desejam é alguém que diga: não vou desperdiçar a chance de lhe amar. Alguém que não canse das promessas, que não sucumba ao egoísmo do pensamento, que tenha maisnecessidade do que razão.
A gentileza é tão fácil. É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.
Quando o amor para de um dos lados, o relógio intelectual morre. Não se vive desprovido de gentileza. A gentileza é o amor em movimento.

Carpinejar

(Fuente: carpinejar)


" Aí um baixinho anacrônico com um bigode grande um pouco menos anacrônico disse que gays deveriam ser tratados com psicólogos em um lugar muito distante, porque a avenida Paulista está cheia demais. Tinha essa moça da pele morena, do sotaque arrastado feito o Rio Amazonas, essa moça do coque bem preso e de olhos grandes. Marina. Até o nome soava esperança. E tive medo. Porque ela tinha medo e vi de longe. Medo só inspira coragem em rival, nunca fui rival dela. Porque ela mudou de ideia vezes demais, e pra ideias erradas demais. Ela teve medo de machucar pessoas de poder, e machucou a mim que de poderoso só tenho o voto. Haviam outros. O cara de sorriso cínico e terno impecável. O cara que nenhum pai recusaria. No alto da sua perfeição bem ensaiada ele exibiu seus dentes, sua certeza, seu discurso elitista maquiado. Ah, parecia um pouco como ir ao teatro. Mas era difícil identificar se o show era uma comédia ou drama. Teve a atual presidente suando frio, agonizando em desculpas superficiais, surpreendentemente ali, sem correr pro México ou algo assim. Teve também esse louco maravilhoso que todos riram dele, todos diziam que estava drogado. Ele fez sentido pra mim. Ele falou sobre viver uma vida sem os chicotes do Capitalismo nos cortando as costas e os pés, nos quebrando os sonhos. Ele falou que era possível ao ser humano crescer sem vampirizar o que não é humano, mas vive. Mas eu achei bonita, principalmente, a sua imperfeição. Os seus trejeitos linguísticos, o seu falar atrapalhado. A sua naturalidade em ser. Eduardo Jorge é o nome dele, o candidato à presidência de quem eu seria amiga, sem vergonha alguma. E então, como não? Luciana, linda, forte e ferina. Como uma leoa. Mas ainda mulher. Mulher o suficiente pra lutar por direitos que não se restringem a mulheres. Direitos que ultrapassavam ela, eu, o meu bairro ou cidade. Direitos civis, humanos, nossos desde nascer. Ninguém lhe fazia perguntas por medo das respostas. Alguns lhes chamaram de nanica, linha-auxiliar-de-partido-concorrente, lhe acusaram de fazer showzinho. Mas ninguém, ninguém, queria voluntariamente lhe fazer perguntas. Ninguém sonhou em ter coragem. Ainda assim, com um sotaque tão bonito quanto sua postura ela falou, o quanto pôde, de quem pôde, com toda a força que tinha. E ela, além do meu pai me contando ao celular que votou nela - sem influência direta minha, foi o meu presente nessa eleição.
Houveram outros que eu gostaria de esquecer, mas é importante lembrar. Pagarei o salário do Collor por mais 8 anos, Alagoas decidiu. Assim como pagarei o de filhos de corruptos como Renan Calheiros e o digníssimo ex-governador da Paraíba (e vitorioso temporariamente ao disputar mesmo cargo) cassado Cássio Cunha Lima, assim como talvez pagarei os deles próprios. Pagarei o salário de Sérgio Reis, que aos 74 anos de idade, nunca antes se envolveu com política (mas tem muitos fãs, aparentemente). Pagarei o salário de homofóbicos assumidos como Feliciano e Bolsonaro, e os verei me envergonhar a cada dia. Pagarei o salário do Tiririca e de mais alguns palhaços. Lidarei, para o resto da minha vida com o fato de que seres humanos, em perfeito estado mental, com polegares opositores e sem demência comprovada apoiaram alguém que incitou em plena rede nacional um confronto com uma ‘minoria’ que não fez nada além de amar pessoas com corpos parecidos. Que muitos o apoiaram exatamente por isso. E que foram mais de 400 mil. Mas a tal minoria foi, no mínimo, três vezes maior. E pra isso, há sorrisos. Muitos. E por isso também, sustento a fé de um dia viver em um país mais humano, com pessoas mais humanas que merecem um governo melhor.
Porque a verdade é que hoje não merecemos.
Outro dia, quem sabe. Eu acredito.
Mas hoje não. "
" Em alguns oásis o deserto é apenas uma miragem. "
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